Desde o momento em que lançamos o projeto da Mostra de Cinema de Gostoso, pelos idos de 2013, sempre nos deparávamos com uma questão fundamental: diante da multiplicidade de festivais de cinema pelo Brasil, como poderíamos delinear uma identidade marcante para o nosso? Que tipo de aproximação deveria ser realizada neste município — paradisíaco, é verdade, mas desprovido de salas de cinema? Acostumados a um outro contexto cultural, no qual a circulação de filmes é muito dinâmica, naquele momento, foi grande a nossa surpresa ao perceber o engajamento da população local e seu grande interesse, apesar do acesso restrito, pela atividade audiovisual do país em franca ascensão.

De lá para cá, muita coisa ocorreu. Desenvolvemos uma conexão grande com a juventude da cidade ao promover os cursos de formação técnica e audiovisual e pudemos observar uma transformação positiva em suas vidas e visões de mundo. Constatamos inclusive que o cinema se tornou uma possibilidade real de trabalho para alguns deles. Vimos a população local se apropriar efetivamente de seu papel de espectador ativo. A Mostra se incorporou à rotina da cidade e todos os anos é um evento muito aguardado. Aqueles anseios de consolidação de uma identidade própria já amadureceram e se traduzem sempre em uma programação de filmes nacionais que aliam a qualidade artística com temas de relevância social para a atualidade, acompanhados de alguns filmes de maior apelo popular, mas que ensejam reflexões importantes.

Para a 6ª Mostra de Cinema de Gostoso trouxemos uma seleção de filmes que atualizam essa linha curatorial. A Mostra Competitiva é composta por quatro longas-metragens e seis curtas-metragens que disputarão o Troféu Luís da Câmara Cascudo, concedido pelo voto popular e o Prêmio da Imprensa. Dentre os filmes há um contundente diálogo entre produções que abordam as relações familiares de maneira particular e com muita inventividade. Outras, apresentam personagens femininas fortes e de universos distintos, trazendo à tona a contemporaneidade da representação feminina no cinema brasileiro Esperamos especialmente que o público se identifique com as produções potiguares selecionadas para essa Mostra, realizadas por diretores jovens e promissores. 

A Mostra Panorama, por sua vez, continua apresentando ao público filmes de linguagem mais inovadora, que experimentam com as múltiplas possibilidades desse meio, em âmbito narrativo, estético e de representatividade. Os filmes selecionados perpassam também por questões do afeto e da busca por um lugar e uma identidade no mundo. A diversidade de narrativas e abordagens da produção audiovisual brasileira contemporânea necessita cada vez mais de espaços para discussão, e nos tempos atuais, esses espaços devem ser aproveitados ao máximo. Por isso, esperamos repetir este ano o sucesso das mesas de debate com realizadores e jornalistas, que sempre contaram com grande presença de público. 

Para reforçar um pilar muito importante da Mostra, a formação de público, a edição deste ano continuará a oferecer a alunos da rede de ensino municipal e estadual um conjunto de filmes selecionados pela educadora Elisabete Bullara, sempre com uma conversa após a sessão. Estes curtas-metragens geralmente abordam temas importantes para o cultivo da tolerância, do respeito e proporcionam o contato com outras culturas e regiões do país. 

Este ano estão programadas — na Praia do Maceió — duas sessões especiais de filmes que não disputam os prêmios da Mostra Competitiva — “Bacurau” e  “A Noite Amarela”. Este último será o filme de encerramento das atividades deste ano e promete agradar principalmente ao público mais jovem. Gostaríamos de ressaltar também a importância da sessão de “Bacurau”, visto que, além do longa-metragem de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles ter sido filmado no interior do Rio Grande do Norte, em paisagens muito familiares para o público da Mostra, ele dialoga intensamente com os tempos atuais ao abordar as questões do colonialismo, afirmação e resistência político-cultural.

Se a Mostra teve seu início em 2013, foi neste mesmo ano que o Brasil começou a passar por profundas transformações. Temos acompanhado este processo de cisão da sociedade e, no meio desses acontecimentos, segue forte a escalada de desvalorização do campo da cultura. Isso eventualmente se reflete no contexto da produção artística mais recente, que passa a circular sob o signo da insegurança e da ansiedade com relação ao futuro. Apesar de tudo isso, encaramos a atual edição da Mostra como um momento simbólico de consolidação de nossas frentes de atividade. Não há dúvida de que houve grandes dificuldades em sua realização, como sempre. Porém, pudemos responder a essas dificuldades à altura, sempre dentro de nossas possibilidades, que consideramos muito significativas.

Conforme a ignorância e o obscurantismo têm dominado o debate público, respondemos viabilizando cada vez mais filmes do Coletivo Nós do Audiovisual. Quatro deles serão exibidos na programação e foram resultado de oficinas com os realizadores João Paulo Gohar e Marco Antônio Pereira. Analisados em perspectiva, eles revelam um incrível aprimoramento dos alunos no domínio de habilidades narrativas, técnicas e artísticas, além de terem fortalecido a união deste grupo.

Enquanto ocorrem ameaças e embates temerários no campo hegemônico das mentalidades e ideologias, reforçamos ainda mais o desejo de ver resultados positivos, realizando, por exemplo, o Gostoso Lab, um ambiente colaborativo cuja promessa é ajudar a desenvolver projetos audiovisuais do Rio Grande do Norte. O laboratório oferecerá a quatro grupos de realizadores potiguares a oportunidade de colocar seus projetos em diálogo e receber orientações de profissionais experientes do mercado. Assim, essas equipes poderão debater suas ideias de filmes sob novas perspectivas, em um exercício de escuta e de abertura ao divergente. A iniciativa é uma parceria com o BrLab, um dos mais importantes laboratórios de desenvolvimento de projetos do país.

Não podemos deixar de agradecer o apoio essencial de algumas instituições e empresas para seguirmos em frente. Primeiramente, ao Governo do Rio Grande do Norte, que novamente patrocina o projeto por meio do Banco Mundial, do Governo Cidadão e da Secretaria de Turismo (SETUR). Muito importante também para a viabilização do projeto, foram o patrocínio da Sprite e os apoios da LACES, Potiporã, SEBRAE-RN, Itograss e da Pousada dos Ponteiros. Nosso agradecimento especial a Gustavo Tittoto pelo apoio e ao jornalista e empresário Emanuel Neri, que apoia incondicionalmente o projeto desde a primeira edição. Gostaríamos de agradecer o apoio fundamental da Prefeitura do Município de São Miguel do Gostoso e de toda comunidade local.

 

A Mostra de Cinema de Gostoso é uma realização da Heco Produções; do Coletivo de Direitos Humanos, Ecologia, Cultura e Cidadania (CDHEC) e da Guajirú Produções.

 

Viva o cinema brasileiro!

Eugenio Puppo e Matheus Sundfeld

FILMES PREMIADOS

· Troféu Luís da Câmara Cascudo — Melhor Longa-Metragem: "Pacarrete", de Allan Deberton
· Troféu Luís da Câmara Cascudo — Melhor Curta-Metragem: "A Parteira", de Catarina Doolan
· Menção honrosa: "Fendas", de Carlos Segundo
· Prêmio da Imprensa — Melhor Longa-Metragem: "Pacarrete", de Allan Deberton
· Prêmio da Imprensa — Melhor Curta-Metragem: "Sete Anos em Maio", de Affonso Uchôa
· Prêmio Laces: "Júlia Porrada", de Igor Ribeiro
· Prêmio Elocompany de distribuição: "Em Reforma", de Diana Coelho
· Prêmio Mistika de finalização: "Quebramar", de Cris Lyra
· Prêmio Videoshack de acessibilidade: "Plano Controle", de Juliana Antunes

REALIZAÇÃO